Perguntou-me se podia sentar-se à minha mesa.
Eu, simplesmente escrevia, e tenho o costume de estar sempre disposta a ouvir estranhos.
Da mesma forma, que sempre guardo as fotografias que encontro na rua.
Desconhecidos insondáveis.
Uma vez, em Lisboa, encontrei as pertenças de uma mulher idosa, metidas em sacos e caixotes.
Presumo que tivesse morrido.
Entre colares de plástico, um coador de chá e roupa velha, estava a fotografia.
Uma mulher séria, de lábios finos e vestida à moda dos anos 20.
O que terá condenado aquela mulher a morrer só?
Estou a desviar-me do que quero contar-vos...
Sentou-se, com um cigarro na mao esquerda, e perguntou-me tranquilamente:
-Podes salvar-me? Salva-me.
Nao tive tempo, sequer, para lhe perguntar em que podia ajuda-la, ela continuou, a olhar-me nos olhos, serena, como se olha alguêm que sabemos que nos vai entender perfeitamente(sim, essas pessoas existem) e a falar.
- O poço profundo em que mergulho de noite.É tao vazio e tao escuro.
E os fantasmas...Já nao me assustam, mas também nao me deixam.
Estou cansada deles, das imagens deles.
Podes salvar-me?
Dos pesadelos de todas as noites, de maos adultas que eu nao entendia.
Do abandono.
Do desamor.
Da cama elástica movida a raiva, que nunca mais deixou de tomar conta de mim.
Salva-me.Pelo menos do medo, que é o pior de tudo.
Começou a chover.
Perguntei-lhe se queria um café.
Ela disse que nao e levantou-se.
A chuva ameaçava engordar.Corri para o abrigo do enorme toldo vermelho.
Fiquei a ve-la ir-se, com as costas direitas e o passo seguro.
Aquela mulher estava morta.
Pode-se morrer de solidao?
noite
ResponderEliminarmais uma vez
sao tantas noites
a mesma
só
e junto
partindo
começo
todo começo sempre começa na morte
entao morramos
de uma morte incomodante
como um bálsamo rubro
que tenhamos que engolir
morramos amor
como bolhas de sabao
que nascem tao lindas e tao frágeis
que a gente sabe que elas nunca chagarao ao céu
nao transformaríamos a linda bolha de sabao
em vidro fosco
amargo
parado
e frio
por isso morramos
que é pra começar
o ônibus sai
e eu me abstenho de voce
prefiro passar os ultimos momentos contigo
comigo
escreve
encravo
escarro
do meu rosto
os ultimos resquícios de amor
e te mostro
pra que também estejas contigo
comigo
agora